29 de janeiro de 2010

Cinco meses depois

Estou de volta ao trabalho. Das outras vezes escureci em casa. Fiquei carrancuda. Chata. A maternidade oprimiu-me. Agora, acho que era a tese por acabar que me pesava nos ombros. Não os filhos.

Desta vez desabrochei e é agora, de volta, que me sinto cinzenta. Apetecia-me ficar em casa e mandar a faculdade às urtigas. O João não percebe. Diz que com os filhos mais velhos ia sentir falta do trabalho para me preencher. Mas o meu trabalho não me preenche, esvazia-me: o tempo, a energia, a criatividade.

Confunde-se "não trabalhar" com ociosidade. Eu gostava de "não trabalhar" precisamente porque há tanta coisa que gosto e quero fazer. Tanta coisa mais útil, até, do ponto de vista social. Tanta coisa pela qual mais valia receber. Mas hoje se "não se recebe", "não se trabalha". É o ordenado ao fim do mês que valida o contributo de cada um. Que nos rotula de trabalhador, ou pária da sociedade.

Ao fim de 40 anos, estamos na mesma. Dantes, ai da mulher que desejasse uma carreira. Agora, ai da mulher que não a deseje. O feminismo lixou-me. Vou arder no inferno, já sei. E o diabo há-de mandar-me escrever artigos, analisar dados e candidatar-me a bolsas por toda a eternidade.

7 comentários:

Ju disse...

Força e faz aquilo que achares que é melhor. Quem é importante são os que te rodeiam, o que os outros pensam não interessa. Não boicotes a tua felicidade por valores com os quais não te revês. Beijinhos

espertinha disse...

É com toda a admiração que sigo este blog. Também estou nos trintas, mas só tenho um. Suspiro todos os dias por passar a trintas... e dois. Suspiro de desejo, mas também suspiro de angústia, pois não consigo visualizar muito bem esta vida louca de trabalho e mais um rebento... É por isso que tenho muita admiração por quem tem mais do que um. Quem tem mais do que dois, então, é quase sobre-humano :)

Joana disse...

Obrigada! Na verdade acho que não é coragem, é mais inconsciência :-)... Mas eles tb fazem muita companhia uns aos outros, acabam por se entreter melhor sem nós do que um sozinho. Mesmo a bebé, passa muito mais tempo sem chorar de aborrecimento se estiver na sala com os irmãos do que sozinha ao pé de mim (a não ser que eu lhe esteja a pegar ao colo, claro!).

Ana disse...

Joana
só temos UMA vida
faz aquilo que te apetecer
ganhares para gastar em quem faz aquilo que poderias fazer em casa e com os teus filhos não vale a pena.
Realiza os teus sonhos, não os dos outros!

Susana Céu disse...

Óptimo texto! Identifiquei-me de imediato com ele. Também eu me sinto vazia no emprego que tenho e sei que seria capaz de fazer tanto mais por mim e pelos outros...

A mãe que capotou disse...

Obrigada, obrigada, obrigada. Hoje estava mesmo a precisar deste post.Obrigada, obrigada, obrigada.

Joana disse...

Cada vez penso mais nisto...