24 de julho de 2009

Não se nota

A mais coisa menos coisa de 4 semanas do parto, resolvi andar com o cartão do SNS comigo. Não vá ser preciso, assim de repente. Tinha-o perdido (ao papel A4, para quem espera o cartão há 5 anos). Passei por lá e foram rápidos e eficientes: imprimiram-me um novo na hora, fiquei novamente encartada. "Já agora", disse eu, "não me pode colocar a indicação de isenção de taxa moderadora?". Parece que não. O mais que evidente bebé dentro de mim não chega, não me qualifica. Só estou grávida se um médico o disser.

Eu compreendo, é para evitar as fraudes, eu poderia estar a mentir. Aliás, garantem-me as minhas primas, "de costas nem se nota nada Joana!".

15 de maio de 2009

Um presente

Ontem não fui buscar o Pedro à escola, como de costume. Ao chegar a casa, uma surpresa, um desenho da família: Pai, Pedro, Luis. No canto, uma nota escrita pela educadora: "A mãe não cabe no desenho porque está muito gorda e ainda vai ficar mais porque tem a Rita lá dentro".

São a alegria de uma mulher, os filhos.

3 de abril de 2009

XX/XY

O meu sogro acha que não me teria feito nada mal brincar mais com bonecas quando era miúda.

19 de março de 2009

XX

O que mais ouço, desde a semana passada, é o quão feliz devo estar por ser menina. "É o que querias, não é?", "Finalmente conseguiste!", todos mais excitados com a notícia do que eu.

É verdade que assim existe um elemento adicional de novidade. É verdade. Mas, honestamente, honestamente, espero que seja uma menina Maria-rapaz.

9 de março de 2009

34

Pesam-me. Especialmente os últimos 4 ou 5. Sinto-o de cada vez que comparo memórias de infância com os meus colegas de gabinete. As deles são as minhas memórias de liceu, algumas dos primeiros anos da faculdade. Vivem com os pais, não sabem o que é o IMI, ou mesmo o IRS, e não sentem qualquer impacto com a descida da taxa de juro (o que é isso?). Nem sequer integram, todos os dias, o que se está a estragar no frigorífico, o que existe na dispensa, o que há que tirar do congelador, ou se é preciso dar um saltinho para comprar coentros à mercearia para fazer o jantar. São estas coisinhas que envelhecem.

Por outro lado, não me vendem à primeira o cartão de estacionamento da faculdade porque julgam que sou aluna, a menina do Boticário pede-me desculpa por só ter amostras da linha >30 para me oferecer, e respondo constantemente "já é o terceiro" quando me oferecem conselhos bem-intencionados sobre a gravidez.

Eu não pareço mais nova. A sociedade é que nos infantiliza até aos 30. Os pais querem-nos em casa, tiramos grau atrás de grau antes de encarar o mercado de trabalho, e temos que ter a casa, 2 carros e empregada antes de ter o primeiro filho. Saltamos da adolescência para o "34, já?!". Pois. Somos é velhos demais para crescer, já não temos energia.

12 de fevereiro de 2009

Rebanho

Há coisa de 1 ano que, aos sábados de manhã, sigo sozinha com os miúdos para as aulas de natação. Saímos mais depressa de casa, o João fica muito mais bem disposto por dormir até tarde, há aquilo do "bonding" e tal e é também a minha versão do "Yes, I can". Estes trabalhos capacitam-me.

Ultimamente, no entanto, a coisa não é bem assim. Sair da cama é um pesadelo. O Luis é a encarnação dos terríveis dois anos. Há 3 semanas consecutivas que o Pedro cai em poças de lama no caminho do, ou para, o carro. E ambos me pedem colo quando já carrego a barriga e os sacos.

Dou comigo a pensar que haveria papel urbano para os cães pastores. A um assobio meu faria-os correr à minha frente, evitando poças, apertando-lhes o cerco para não dispersarem para a estrada, impedindo que tirassem 10 senhas do dispensador de tickets da secretaria, ou que espalhassem os panfletos dos expositores pelo chão. Tais cães teriam, é claro, o mesmo estatuto de cães-guia. Para podermos andar com eles no Metro e encarreirar os miudos, alinhados, escada rolante acima. E, nos restaurantes, um pequeno rosnar à menor intenção de se enfiarem debaixo da mesa seria o suficiente para assegurar uma refeição menos indigesta.

Alguém, que eu não tenho energia, deveria pensar melhor nisto, no pastoreio urbano. Até lá, vou menos vezes à natação.

26 de janeiro de 2009

SG

Em casa do meu tio há muitas cadeiras de massagens. Uma delas, bastante boa: bruta q.b. Quando lá vamos, há fila para nos sentarmos 5 minutos. Ontem não me deixaram, viraram-se contra mim, disseram-me que estava grávida, não podia. Diziam umas instruções de um fabricante cioso de eventuais processos, que não era aconselhável a grávidas. Rebelei-me, "na minha barriga mando eu", e também não aprecio que me tratem como se não tivesse bom senso. Mas naquele momento eu era apenas um útero, um casulo. O indivíduo em mim desapareceu, esfumou-se, entre as baforadas de SG filtro que os guardiões da saúde do meu filho lançavam sobre mim.

25 de novembro de 2008

O parto revisited

A máquina de fazer "plim". Ainda hoje aparece em conversa quanda falamos da experiência hospitalar. O que já não me lembrava, e revi hoje aqui, é que o contexto do sketch é mesmo um parto.

Só os Monty Python para me fazerem rir disto.

Gosto especialmente do "Nothing dear, you´re not qualified." e do "Only people involved are allowed here!" É mesmo, mesmo, assim.


2 de outubro de 2008

Verde

Estou em casa. Agora, cheia de dados, a precisar de um ninho académico onde possa olhar para eles, transformá-los em gráficos e em pês menores que 0.05, esbarro na burocracia e nas tricas da hierarquia. Tenho sala? Tenho. Sempre para a semana. E está sempre a mudar de sítio, a minha sala, que, aliás, é provisória. Porque há-de ser outra. E enquanto espero, mais uma semana, todas as semanas, não é nenhuma. Há uma data delas, fechadas. A ganhar pó. À espera de gente. Mas, enquanto a cúpula decide, permaneço em casa.

Estou quase, quase, zangada. Faço o que posso por aqui, devagarinho. Já tenho exceis. Já tenho números. Aproveito a privacidade do escritório caseiro e ponho uma máscara na cara. Espero que seque enquanto olho o ecran. O Pedro, que vê a minha estadia como uma oportunidade para ficar com febre e não ir à escola, pergunta-me com entusiasmo "Mãe! És o Hulk?!". Por enquanto sou só o mild mannered Dr. Bruce Banner. Mas a cada semana que passa, cresce o Hulk dentro de mim. Que com certeza me meterá em sarilhos.

16 de julho de 2008

Dizia eu ao meu orientador que fulana (de quem gosto muito, e ele também) não filtra o que diz. "E isso é mau?", pergunta-me ele com ar de quem acha que até é refrescante. "Não sei bem... Eu também não filtro". "Tu não filtras mesmo nada. Tens que ter cuidado!".

Parece-me que, afinal, é mau. E parece-me, também, que devo ter posto o pé na poça recentemente.

22 de maio de 2008

Default

O Pedro lamentava-se ontem por não ser castanho como o melhor amigo. "Para ser bonito como o Márcio", dizia-me. "E quero o cabelo, também, castanho escuro e que não cresce". São os dois bonitos. Pequeninos, irrequietos e com os olhos grandes. Nisso até são parecidos. E as cores, expliquei-lhe, dependem das cores dos pais e não há forma de mudar. Ou razão para o fazer.

A minha avó atalhou uma explicação que lhe pareceu mais simples, mais adequada à idade: "O teu amigo é mais castanho porque vai muito à praia e passa muito tempo ao sol. Tens que apanhar sol para ficar mais como ele". Aquilo irritou-me. Percebo-lhe a intenção e sei que não há malícia. Mas o discurso encerra uma opção por defeito: ser claro. A pele escura é uma variante que se alcança se apanharmos sol. São estas subtilezas, estas simplificações infantis, que constroem o preconceito. Que pode não encerrar ódio, nem ser mal intencionado, mas que não deixa de ser um preconceito. Um pré-conceito, aliás, o verdadeiro sentido do termo. Uma pessoa, um ser-humano, tem a pele clara. Tudo o resto é construído sobre esta imagem. Como as bonecas de papel que se podem vestir com diferentas peças de roupa que recortamos. Ou colorir, se a quisermos de cor diferente do original.

Será um pré-conceito geográfico, talvez. Aceito isso e espero que os antípodas equilibrem as coisas. E que as avós do hemisfério Sul alvitrem a falta de sol, aos seus netos, como explicação para a pele leitosa dos que vivem por estas bandas. Mas dado o historial do mundo acho, o nosso, um pré-conceito perigoso. E espero que os meus filhos o adiquiram tão tarde quanto possível. A par da racionalização, da noção de geografia, de proporções, de culturas. Para que saibam que é assim aqui, mas que não é assim em todo o lado. E nisto estou contente com a escola que escolhi para eles. Ali não se insinuam defaults.

21 de maio de 2008

Heróis

Assim, que me lembre, tive três heróis.

Primeiro a Heidi. Identificava-me com a sua relação tão próxima com o avó. Também o meu me levava ao campo, me ensinou a andar de bicicleta, a lançar o peão e até a andar de andas. Se pudesse viveria ali, com ele, e fugia da cidade grande como ela, de volta para a montanha. Fez-me gostar do nome Pedro. Tanto, que é o nome de um dos meus filhos. E quem se vestia de roxo era, com toda a certeza, pérfido como a Rottermeier.

Depois o Sandokan. Faz parte do meu imaginário romântico. O melhor amigo de Sandokan era um português de nome Eanes e no meu universo de 5 ou 6 anos era encarnado pelo então presidente Ramalho. Só podia ser boa pessoa, sendo amigo do Tigre da Malásia.

Já na adolescência apareceu o McGyver. Um herói dos tempos modernos, a transbordar de engenho e conhecimento. Graças a ele sei como travar uma fuga de ácido sulfúrico numa central nuclear, caso me veja em tais apuros. Inicialmente só o via na TVE. O meu pai chamava-lhe "O homem do VitorInox" e só descobrimos o seu nome quando, anos mais tarde, a série passou em Portugal.

O meu novo orientador é um bocadinho McGyver. Precisa de mais ferramentas, é certo, mas constroi qualquer coisa de que precisemos. E, ao mesmo tempo, ensina-nos o que há de mais íntimo sobre a Transformada de Fourier. Tem sido inspirador. Outro dia quando o meu secador de cabelo se estragou a poucas horas de uma ida a um casamento, depois do Engenheiro aqui de casa ter declarado que não o conseguia arranjar por falta de ferramentas adequadas, saquei do meu canivetezinho vermelho e de um rolo de fita-cola e ainda hoje continua a soprar ar quente. Repito mentalmente "Mi nombre es 'macguiber'".

13 de maio de 2008

Fechado para trabalho de campo

Não tenho tempo. Nenhum. Regulo-me pelas marés, estou toda picada por mosquitos e esfalfo-me a tentar arrancar um gerador todos os dias. Falta-me a força de braços. A única reflexão que me ocorre é "Porque é que eu me meti nisto outra vez?". Voltarei assim que conseguir elaborar sobre outras coisas.

16 de abril de 2008

Música

Há 10 anos atrás passei muito tempo a olhar para peixes com o meu walkman por companhia. O discman acompanhou-me no sapal da Ria Formosa. Só ocasionalmente porque tinha medo que se sujasse e fosse o seu fim. Agora ando na praia da base aérea do Montijo com o meu novo ipod shuffle pendurado na alça da camisola. Dá até para pendurar no biquini. Mesmo bom para isto do campo.

A tecnologia evoluiu. Eu é que não. Continuo a ouvir os Radiohead e tenho pena que não dê para ripar cassetes. Tenho lá para casa uma pirataria ao vivo comprada em Camden com o Thom York no seu melhor. Por um lado gosto da sensação destas reminiscências do Erasmus. Por outro sinto-me uma velha do Restelo.

8 de abril de 2008

Certo como à noite se segue o dia

Continuo a ser o Mike. A carreira académica está verdadeiramente globalizada. É um caminho sem retorno em qualquer lugar no mundo. Mas continua a ser um mundo à parte de todos os outros, compreensível apenas por quem lá habita. Inexplicável a quem está de fora. Ainda bem que existe o Piled Higher & Deeper. É assim tipo support group para investigadores.

13 de março de 2008

Respeito

Há uns tempos atrás resolvi retomar algum do controlo perdido na minha vida. O ideal seria dominar a taxa de juro, isso é que era, mas limitei-me a torturar-me com uma dieta durante 6 meses. Estou agora, mais ou menos com o meu aspecto pré-filhos excepto na barriga, cabelos brancos, ar desgastado e outras coisas mais que não me apetece gritar ao mundo. Mas as calças são de novo o 28. Infelizmente depois de guardar toda a minha roupa, esperançada, até ao Verão passado, perdi a fé em mim e dei quase tudo antes que as traças comessem. Ando por isso, agora, a ver se me renovo. Já me tinha esquecido é que tudo o que encontro nas lojas me costuma dizer que tenho as costas demasiado estreitas para o tamanho do meu peito, o pé demasiado pequeno para o perímetro da minha perna e a anca demasiado larga para a minha cintura - este último defeito já próximo da resolução com a ajuda do Pedro e do Luis. Sendo neta de alfaiate e costureira só agora me apercebo realmente do fim do "feito à medida".

Penso nisto enquanto folheio o antigo caderno de corte do meu avô. As indicações de como passar as medidas do cliente para a fazenda nos diferentes tipos de trajes. Calças, casacas, capotes, batinas de padre. E, a tracejado, as minhas anotações preferidas: variante para barrigudo, alteração para corcunda, calças para coxo, ombros descaídos, ilíacos assimétricos. Faz-me olhar com despreso os ginásios, nutricionistas e toda a cultura do físico tida como saudável. De respeito pelo corpo, como dizem. Que engano tremendo! O respeito pelo corpo está no respeito pelas suas particularidades. E parece que se acabou com os alfaiates.

Agora vou celebrar esta descoberta com uma fatia de bolo de requeijão.

28 de fevereiro de 2008

Imagem

De manhã hesitei entre vestir uma das minhas várias calças rotas nos joelhos, ou umas assim um bocadinho menos rotas, o par "bom", ainda que meio esgaçadas perto dos bolsos. Todas assim de velhas, não de propósito. Enquanto ponderava quais usar o João apressou-me com um "Despacha-te que temos que ir ao Barclays".

Já ando farta dos joelhos expostos ao frio de Inverno mas decidi-me pelas mais rotas. É que, nisto de bancos, convem pensar-se na imagem.

13 de fevereiro de 2008

Expectativas

A minha avó Celina sempre soube gerir com mestria dois papeis muito distintos. Por um lado, o de mulher em segundo plano, que gere a casa e atende ao marido e aos filhos. Por outro, o de mulher auto-suficiente e independente económicamente. A sua mãe foi provavelmente uma das poucas mulheres legalmente divorciadas da sua geração, ficando com os seus 6 filhos a cargo. Talvez por isso, a noção de ser necessário o auto-sustento, sem depender seja de quem for, é algo primário para a minha avó. Durante muito tempo, aliás, inverteram-se os papeis tradicionais e foi também ela que sustentou a casa com os seus trabalhos de custura, que a alfaiataria do meu avô, com o advento do pronto-a-vestir, dava pouco mais que prejuizo. A integração destes dois papeis sempre foi exímia. E muito bem ilustrada pelo facto de, sempre que recebia dinheiro, a minha avó ter o cuidado de colocar, sorrateiramente, parte dele na carteira do meu avô. Para que sempre tivesse algum "para as suas coisas" e não se sentisse humilhado tendo que pedir.

Agora, comigo, exige-me que seja igual. A culpa do João não comer fruta é minha, que não lhe descasco. E corro também sérios riscos de ele sofrer uma grave desilusão se não lhe fizer jantar nos dias em que chega mais tarde e em que, por isso mesmo, tenho mais trabalho com os miúdos. Ele talvez exija o divórcio por eu lhe sugerir que traga um frango demasiadas vezes. Por outro lado acha que a minha insistência anual para ir à pendura ao Lés a Lés é injustificada. Eu devia era tirar a carta de moto e fazer equipa com ele, em pé de igualdade.

Tenho genuina pena em desiludi-la. Não só tenho medo de conduzir uma moto como acho que, não é que tenha direito de o exigir, é claro, mas não acho descabido que o João me descasque uma fruta a mim.