Em casa do meu tio há muitas cadeiras de massagens. Uma delas, bastante boa: bruta q.b. Quando lá vamos, há fila para nos sentarmos 5 minutos. Ontem não me deixaram, viraram-se contra mim, disseram-me que estava grávida, não podia. Diziam umas instruções de um fabricante cioso de eventuais processos, que não era aconselhável a grávidas. Rebelei-me, "na minha barriga mando eu", e também não aprecio que me tratem como se não tivesse bom senso. Mas naquele momento eu era apenas um útero, um casulo. O indivíduo em mim desapareceu, esfumou-se, entre as baforadas de SG filtro que os guardiões da saúde do meu filho lançavam sobre mim.
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26 de janeiro de 2009
25 de novembro de 2008
O parto revisited
A máquina de fazer "plim". Ainda hoje aparece em conversa quanda falamos da experiência hospitalar. O que já não me lembrava, e revi hoje aqui, é que o contexto do sketch é mesmo um parto.
Só os Monty Python para me fazerem rir disto.
Gosto especialmente do "Nothing dear, you´re not qualified." e do "Only people involved are allowed here!" É mesmo, mesmo, assim.
Gosto especialmente do "Nothing dear, you´re not qualified." e do "Only people involved are allowed here!" É mesmo, mesmo, assim.
22 de maio de 2008
Default
O Pedro lamentava-se ontem por não ser castanho como o melhor amigo. "Para ser bonito como o Márcio", dizia-me. "E quero o cabelo, também, castanho escuro e que não cresce". São os dois bonitos. Pequeninos, irrequietos e com os olhos grandes. Nisso até são parecidos. E as cores, expliquei-lhe, dependem das cores dos pais e não há forma de mudar. Ou razão para o fazer.
A minha avó atalhou uma explicação que lhe pareceu mais simples, mais adequada à idade: "O teu amigo é mais castanho porque vai muito à praia e passa muito tempo ao sol. Tens que apanhar sol para ficar mais como ele". Aquilo irritou-me. Percebo-lhe a intenção e sei que não há malícia. Mas o discurso encerra uma opção por defeito: ser claro. A pele escura é uma variante que se alcança se apanharmos sol. São estas subtilezas, estas simplificações infantis, que constroem o preconceito. Que pode não encerrar ódio, nem ser mal intencionado, mas que não deixa de ser um preconceito. Um pré-conceito, aliás, o verdadeiro sentido do termo. Uma pessoa, um ser-humano, tem a pele clara. Tudo o resto é construído sobre esta imagem. Como as bonecas de papel que se podem vestir com diferentas peças de roupa que recortamos. Ou colorir, se a quisermos de cor diferente do original.
Será um pré-conceito geográfico, talvez. Aceito isso e espero que os antípodas equilibrem as coisas. E que as avós do hemisfério Sul alvitrem a falta de sol, aos seus netos, como explicação para a pele leitosa dos que vivem por estas bandas. Mas dado o historial do mundo acho, o nosso, um pré-conceito perigoso. E espero que os meus filhos o adiquiram tão tarde quanto possível. A par da racionalização, da noção de geografia, de proporções, de culturas. Para que saibam que é assim aqui, mas que não é assim em todo o lado. E nisto estou contente com a escola que escolhi para eles. Ali não se insinuam defaults.
A minha avó atalhou uma explicação que lhe pareceu mais simples, mais adequada à idade: "O teu amigo é mais castanho porque vai muito à praia e passa muito tempo ao sol. Tens que apanhar sol para ficar mais como ele". Aquilo irritou-me. Percebo-lhe a intenção e sei que não há malícia. Mas o discurso encerra uma opção por defeito: ser claro. A pele escura é uma variante que se alcança se apanharmos sol. São estas subtilezas, estas simplificações infantis, que constroem o preconceito. Que pode não encerrar ódio, nem ser mal intencionado, mas que não deixa de ser um preconceito. Um pré-conceito, aliás, o verdadeiro sentido do termo. Uma pessoa, um ser-humano, tem a pele clara. Tudo o resto é construído sobre esta imagem. Como as bonecas de papel que se podem vestir com diferentas peças de roupa que recortamos. Ou colorir, se a quisermos de cor diferente do original.
Será um pré-conceito geográfico, talvez. Aceito isso e espero que os antípodas equilibrem as coisas. E que as avós do hemisfério Sul alvitrem a falta de sol, aos seus netos, como explicação para a pele leitosa dos que vivem por estas bandas. Mas dado o historial do mundo acho, o nosso, um pré-conceito perigoso. E espero que os meus filhos o adiquiram tão tarde quanto possível. A par da racionalização, da noção de geografia, de proporções, de culturas. Para que saibam que é assim aqui, mas que não é assim em todo o lado. E nisto estou contente com a escola que escolhi para eles. Ali não se insinuam defaults.
13 de março de 2008
Respeito
Há uns tempos atrás resolvi retomar algum do controlo perdido na minha vida. O ideal seria dominar a taxa de juro, isso é que era, mas limitei-me a torturar-me com uma dieta durante 6 meses. Estou agora, mais ou menos com o meu aspecto pré-filhos excepto na barriga, cabelos brancos, ar desgastado e outras coisas mais que não me apetece gritar ao mundo. Mas as calças são de novo o 28. Infelizmente depois de guardar toda a minha roupa, esperançada, até ao Verão passado, perdi a fé em mim e dei quase tudo antes que as traças comessem. Ando por isso, agora, a ver se me renovo. Já me tinha esquecido é que tudo o que encontro nas lojas me costuma dizer que tenho as costas demasiado estreitas para o tamanho do meu peito, o pé demasiado pequeno para o perímetro da minha perna e a anca demasiado larga para a minha cintura - este último defeito já próximo da resolução com a ajuda do Pedro e do Luis. Sendo neta de alfaiate e costureira só agora me apercebo realmente do fim do "feito à medida".
Penso nisto enquanto folheio o antigo caderno de corte do meu avô. As indicações de como passar as medidas do cliente para a fazenda nos diferentes tipos de trajes. Calças, casacas, capotes, batinas de padre. E, a tracejado, as minhas anotações preferidas: variante para barrigudo, alteração para corcunda, calças para coxo, ombros descaídos, ilíacos assimétricos. Faz-me olhar com despreso os ginásios, nutricionistas e toda a cultura do físico tida como saudável. De respeito pelo corpo, como dizem. Que engano tremendo! O respeito pelo corpo está no respeito pelas suas particularidades. E parece que se acabou com os alfaiates.
Agora vou celebrar esta descoberta com uma fatia de bolo de requeijão.
Penso nisto enquanto folheio o antigo caderno de corte do meu avô. As indicações de como passar as medidas do cliente para a fazenda nos diferentes tipos de trajes. Calças, casacas, capotes, batinas de padre. E, a tracejado, as minhas anotações preferidas: variante para barrigudo, alteração para corcunda, calças para coxo, ombros descaídos, ilíacos assimétricos. Faz-me olhar com despreso os ginásios, nutricionistas e toda a cultura do físico tida como saudável. De respeito pelo corpo, como dizem. Que engano tremendo! O respeito pelo corpo está no respeito pelas suas particularidades. E parece que se acabou com os alfaiates.
Agora vou celebrar esta descoberta com uma fatia de bolo de requeijão.
28 de fevereiro de 2008
Imagem
De manhã hesitei entre vestir uma das minhas várias calças rotas nos joelhos, ou umas assim um bocadinho menos rotas, o par "bom", ainda que meio esgaçadas perto dos bolsos. Todas assim de velhas, não de propósito. Enquanto ponderava quais usar o João apressou-me com um "Despacha-te que temos que ir ao Barclays".
Já ando farta dos joelhos expostos ao frio de Inverno mas decidi-me pelas mais rotas. É que, nisto de bancos, convem pensar-se na imagem.
Já ando farta dos joelhos expostos ao frio de Inverno mas decidi-me pelas mais rotas. É que, nisto de bancos, convem pensar-se na imagem.
13 de fevereiro de 2008
Expectativas
A minha avó Celina sempre soube gerir com mestria dois papeis muito distintos. Por um lado, o de mulher em segundo plano, que gere a casa e atende ao marido e aos filhos. Por outro, o de mulher auto-suficiente e independente económicamente. A sua mãe foi provavelmente uma das poucas mulheres legalmente divorciadas da sua geração, ficando com os seus 6 filhos a cargo. Talvez por isso, a noção de ser necessário o auto-sustento, sem depender seja de quem for, é algo primário para a minha avó. Durante muito tempo, aliás, inverteram-se os papeis tradicionais e foi também ela que sustentou a casa com os seus trabalhos de custura, que a alfaiataria do meu avô, com o advento do pronto-a-vestir, dava pouco mais que prejuizo. A integração destes dois papeis sempre foi exímia. E muito bem ilustrada pelo facto de, sempre que recebia dinheiro, a minha avó ter o cuidado de colocar, sorrateiramente, parte dele na carteira do meu avô. Para que sempre tivesse algum "para as suas coisas" e não se sentisse humilhado tendo que pedir.
Agora, comigo, exige-me que seja igual. A culpa do João não comer fruta é minha, que não lhe descasco. E corro também sérios riscos de ele sofrer uma grave desilusão se não lhe fizer jantar nos dias em que chega mais tarde e em que, por isso mesmo, tenho mais trabalho com os miúdos. Ele talvez exija o divórcio por eu lhe sugerir que traga um frango demasiadas vezes. Por outro lado acha que a minha insistência anual para ir à pendura ao Lés a Lés é injustificada. Eu devia era tirar a carta de moto e fazer equipa com ele, em pé de igualdade.
Tenho genuina pena em desiludi-la. Não só tenho medo de conduzir uma moto como acho que, não é que tenha direito de o exigir, é claro, mas não acho descabido que o João me descasque uma fruta a mim.
Agora, comigo, exige-me que seja igual. A culpa do João não comer fruta é minha, que não lhe descasco. E corro também sérios riscos de ele sofrer uma grave desilusão se não lhe fizer jantar nos dias em que chega mais tarde e em que, por isso mesmo, tenho mais trabalho com os miúdos. Ele talvez exija o divórcio por eu lhe sugerir que traga um frango demasiadas vezes. Por outro lado acha que a minha insistência anual para ir à pendura ao Lés a Lés é injustificada. Eu devia era tirar a carta de moto e fazer equipa com ele, em pé de igualdade.
Tenho genuina pena em desiludi-la. Não só tenho medo de conduzir uma moto como acho que, não é que tenha direito de o exigir, é claro, mas não acho descabido que o João me descasque uma fruta a mim.
8 de fevereiro de 2008
CV
Estive a avaliar CVs de candidaturas a um projecto de uma empresa com que colaboro pontualmente. Foi a primeira vez que me vi neste papel de escolha. Procura-se alguém que, para além da formação técnica ou científica adequada, possua alguma articulação verbal, que a ideia é os candidatos elaborarem candidaturas a financiamentos pelo novo quadro comunitário.
Percebi rápidamente que não tenho os mesmo critérios na avaliação de capacidade de escrita que a pessoa que seleccionava os CVs comigo, que é também o principal impulsionador deste projecto. "Este não, só tem média de 14", diz ele. "Mas fez um curso de escrita criativa e tudo, olha lá, é capaz de ser interessante". "Mas só tem média de 14". E pronto, fica arrumado, porque a experiência diz-lhe que os bons alunos são mais articulados, mais organizados e mais responsáveis. É capaz de ter razão, eu sou novata nisto. Mas ainda assim acho que o fazer um curso de escrita criativa diz mais sobre a relação de alguém com as letras que aquele número com que se termina o curso.
Mas o pior veio depois. "1975? Esta está em idade reprodutora...", diz enquanto torce o nariz. "E não trabalha desde Junho do ano passado? É de certeza casada e deve estar em casa com a prole". Primeiro fiquei surpresa - que o tenho em boa conta - e depois incomodada. Disse-lhe que sobre os rapazes não fazia comentários à idade e ao estado civil e que estava a achar aquilo preconceituoso, e que são estas coisas o mal da sociedade que temos. Ainda tinha mais argumentos, mas não tive tempo, terão que ficar para outra altura. É que tenho sempre que sair às 5, sem falta, para conseguir ir buscar os miúdos à escola.
Percebi rápidamente que não tenho os mesmo critérios na avaliação de capacidade de escrita que a pessoa que seleccionava os CVs comigo, que é também o principal impulsionador deste projecto. "Este não, só tem média de 14", diz ele. "Mas fez um curso de escrita criativa e tudo, olha lá, é capaz de ser interessante". "Mas só tem média de 14". E pronto, fica arrumado, porque a experiência diz-lhe que os bons alunos são mais articulados, mais organizados e mais responsáveis. É capaz de ter razão, eu sou novata nisto. Mas ainda assim acho que o fazer um curso de escrita criativa diz mais sobre a relação de alguém com as letras que aquele número com que se termina o curso.
Mas o pior veio depois. "1975? Esta está em idade reprodutora...", diz enquanto torce o nariz. "E não trabalha desde Junho do ano passado? É de certeza casada e deve estar em casa com a prole". Primeiro fiquei surpresa - que o tenho em boa conta - e depois incomodada. Disse-lhe que sobre os rapazes não fazia comentários à idade e ao estado civil e que estava a achar aquilo preconceituoso, e que são estas coisas o mal da sociedade que temos. Ainda tinha mais argumentos, mas não tive tempo, terão que ficar para outra altura. É que tenho sempre que sair às 5, sem falta, para conseguir ir buscar os miúdos à escola.
31 de janeiro de 2008
Tradição
Hoje, eu e o João, fazemos anos de casados. Como é costume, nenhum de nós se lembrou. Fomos alertados pelos parabéns de terceiros. Há um certo conforto nesta tradição de esquecimento. Suspeitarei que algo de errado se passa no dia em que for surpreendida com uma prenda a assinalar a data.
Fiz as contas aos anos. Só sei quantos são se andar para trás. Casámos dois anos depois do início de namoro. Começámos a namorar no ano em que morreu o meu amigo Luis (eu, ansiosa por chegar ao trabalho depois do Verão para lhe contar a novidade, fui recebida pela notícia e os olhos inchados de todos os que chegaram antes de mim). O Luis morreu no primeiro aniversário da queda das torres. E, bom, sei que as torres caíram em 2001 porque a essa informação não se escapa. Faço assim as contas: 2001 - 2002 - 2004! Para 2008, são quatro anos.
Claro que agora que fomos lembrados e as contas foram feitas, já lhe disse que a este ano corresponde uma prenda de fruta ou flores. Ele sugeriu 1Kg de pêras. Sinto também um certo conforto nesta tradição de romantismo entre nós.
Fiz as contas aos anos. Só sei quantos são se andar para trás. Casámos dois anos depois do início de namoro. Começámos a namorar no ano em que morreu o meu amigo Luis (eu, ansiosa por chegar ao trabalho depois do Verão para lhe contar a novidade, fui recebida pela notícia e os olhos inchados de todos os que chegaram antes de mim). O Luis morreu no primeiro aniversário da queda das torres. E, bom, sei que as torres caíram em 2001 porque a essa informação não se escapa. Faço assim as contas: 2001 - 2002 - 2004! Para 2008, são quatro anos.
Claro que agora que fomos lembrados e as contas foram feitas, já lhe disse que a este ano corresponde uma prenda de fruta ou flores. Ele sugeriu 1Kg de pêras. Sinto também um certo conforto nesta tradição de romantismo entre nós.
4 de janeiro de 2008
Cicatrizes
"Quando alguma coisa falta pode ser acrescentada". Esta frase está escrita numa parede de um prédio ao lado do meu. Não é graffiti. Faz parte de uma instalação alternativa qualquer que por ali houve. A instalação foi temporária, mas a frase é perene. Sempre que passo, olho-a, leio-a, e há ali qualquer coisa que trago para casa. É um modo de vida. Pode significar a diferença entre tornarmo-nos pessoas amargas a maldizer a nossa condição, ou felizes com a vida e achar que todos os males têm remédio. Gosto de a ler, amiúde. Tento que seja um lema.
Começo assim para dizer que costumo ler aquilo que vejo pintado. Nem sempre é só tinta a conspurcar paredes. E acho saudável fazer o esforço por ler o que alguém quiz dizer. Pode acrescentar-nos alguma coisa ao dia, se não à vida. Volta e meia tenho esta conversa com pessoas, mas geralmente não partilham o meu ponto de vista. Há uns tempos tive esta discussão com um amigo a quem enviei esta foto e lhe dizia que me perguntava porque é que existe esta necessidade generalizada de exprimir publicamente o amor. Um amor mais efémero do que os nomes que deixa escritos, argumentava ele, com razão. Mas talvez seja essa efemeridade a razão de o deixar gravado.
Tive esta epifânia, hoje ao almoço, enquanto conversava com o meu pai. Ele falava sobre um documentário em que se discutia o significado evolutivo das cicatrizes. Houve tempo e oportunidade para que a regeneração de tecidos fosse mais perfeita. Para que se conseguisse a elasticidade e pigmentação de uma pele virgem. Mas não. Desenvolvemos um processo de cicatrização que deixa marcas. E evolutivamente faz todo o sentido. São memórias que ali estão. Memórias dos sarilhos em que não nos devemos meter se queremos sobreviver. Memórias do que nos magoa. Do que devemos evitar. E de repente, percebi, que o amor público pelas paredes da cidade, pelos bancos, pelas troncos de árvores, são cicatrizes também. Que se enchem de significado quando o amor passa. E nos servem de lição quando as relemos.
Começo a olhar as cicatrizes de forma diferente, desde hoje ao almoço. Sempre achei que as de "guerra" continham histórias, mas agora percebi que todas elas são memórias dignas. Quem prestar atenção à coluna da direita verá, pelos meus links, que vivo a frustação dos meus filhos não terem nascido de parto natural, que sinto as duas cesarianas por que passei quase como uma violação da minha condição de fêmea. Mas hoje olho a minha cicatriz púbica, cujo o meu tipo de pele ainda exagerou ao formar queloide, e tenho pena que não se note quando uso biquini.
Começo assim para dizer que costumo ler aquilo que vejo pintado. Nem sempre é só tinta a conspurcar paredes. E acho saudável fazer o esforço por ler o que alguém quiz dizer. Pode acrescentar-nos alguma coisa ao dia, se não à vida. Volta e meia tenho esta conversa com pessoas, mas geralmente não partilham o meu ponto de vista. Há uns tempos tive esta discussão com um amigo a quem enviei esta foto e lhe dizia que me perguntava porque é que existe esta necessidade generalizada de exprimir publicamente o amor. Um amor mais efémero do que os nomes que deixa escritos, argumentava ele, com razão. Mas talvez seja essa efemeridade a razão de o deixar gravado.
Tive esta epifânia, hoje ao almoço, enquanto conversava com o meu pai. Ele falava sobre um documentário em que se discutia o significado evolutivo das cicatrizes. Houve tempo e oportunidade para que a regeneração de tecidos fosse mais perfeita. Para que se conseguisse a elasticidade e pigmentação de uma pele virgem. Mas não. Desenvolvemos um processo de cicatrização que deixa marcas. E evolutivamente faz todo o sentido. São memórias que ali estão. Memórias dos sarilhos em que não nos devemos meter se queremos sobreviver. Memórias do que nos magoa. Do que devemos evitar. E de repente, percebi, que o amor público pelas paredes da cidade, pelos bancos, pelas troncos de árvores, são cicatrizes também. Que se enchem de significado quando o amor passa. E nos servem de lição quando as relemos.
Começo a olhar as cicatrizes de forma diferente, desde hoje ao almoço. Sempre achei que as de "guerra" continham histórias, mas agora percebi que todas elas são memórias dignas. Quem prestar atenção à coluna da direita verá, pelos meus links, que vivo a frustação dos meus filhos não terem nascido de parto natural, que sinto as duas cesarianas por que passei quase como uma violação da minha condição de fêmea. Mas hoje olho a minha cicatriz púbica, cujo o meu tipo de pele ainda exagerou ao formar queloide, e tenho pena que não se note quando uso biquini.
14 de novembro de 2007
Um copo d'água
Num café onde parei ocasionalmente, como em tantos outros, um rapaz entrou e pediu um copo de água. Pela primeira vez na vida ouvi, pasma, as razões de um comerciante para não aceder ao pedido. Que vendia era garrafas de água, não era copos. Que estava ali desde as 5 da manhã. Que ninguém trabalha de graça. Se acaso sabia qual a sua conta de água mensal. Quando por fim, de forma bruta, colocou o copo cheio no balcão o rapaz já não o quis. Saiu ofendido. Fez ele bem. Tanto veneno espumado, algum havia de ter caído ao copo.
Tristes tempos, estes, em que se nega um copo de água. É o que penso e foi o que disse. Foi algo do género, também, que lhe disse uma senhora de idade a terminar um galão e uma torrada. Era cliente habitual e nunca mais lá iria. À saida mostrou-me que levava, à revelia, o pacote de açucar não utilizado, "para ele aprender!".
O rapaz, esse, passou depois à porta com uma garrafa de água fresca comprada no café seguinte.
Coitado do senhor do café! Para além de paupérrimo de espírito, ficou mais pobre em três potenciais clientes, uma garrafa de água, e um pacote de açúcar.
Tristes tempos, estes, em que se nega um copo de água. É o que penso e foi o que disse. Foi algo do género, também, que lhe disse uma senhora de idade a terminar um galão e uma torrada. Era cliente habitual e nunca mais lá iria. À saida mostrou-me que levava, à revelia, o pacote de açucar não utilizado, "para ele aprender!".
O rapaz, esse, passou depois à porta com uma garrafa de água fresca comprada no café seguinte.
Coitado do senhor do café! Para além de paupérrimo de espírito, ficou mais pobre em três potenciais clientes, uma garrafa de água, e um pacote de açúcar.
3 de julho de 2007
Sociedade de consumo
A reparação do frigorífico sai a pouco menos do que um novo. Se lhe juntar uma reparação anterior, de há uns meses atrás, sai ao mesmo preço. E se decobrissem mais qualquer coisinha estragada, de modo a que optasse, a posteriori, por um novo, então pagaria uma taxa de recusa de orçamento de qualquer coisa como setenta e tal euros.
Mais comprar um novo.
Mais o risco de nova avaria para breve, sem garantia.
Vou comprar um novo, portanto. Maior, mais adequado a uma família de quatro. E que fique ali quietinho na cozinha, agora que temos uma casa grande. Afinal, este, o velho, passou por 2 mudanças e 3 casas diferentes.
Isto digo eu para me sentir justificada. Este só tinha 5 anos! Não é envelhecimento precoce? Parece que não. Segundo o técnico de reparações é a idade média dos electrodomésticos. É também a opinião da Clara e da minha vizinha da frente. "Mas a máquina de lavar da minha mãe lavou fraldas do meu irmão que já tem 30 anos!", digo eu. "E o frigorífico é o mesmo desde que me lembro!". "Eram outros tempos, outro material, minha senhora...", diz-me o técnico.
Mais do que o dinheiro que vou gastar deprime-me viver nestes tempos. Ou, antes, que estes tempos sejam assim, descartáveis.
Por isso, no Domingo, na FIA, quase me comovi ao ver a transformação de uma embalagem de sumo em carrinho para brincadeiras. Era um workshop da Oficina ReCriativa. Parece que em 2 horas podemos aprender a fazer brinquedos da maioria do desperdício doméstico.
E reparo, a sério que reparo, que o Pedro (ainda) diz "Mãe, arranja" e não "Mãe, compra outro". É claro que se eu medir a qualidade dos produtos de hoje pelo tempo médio que ele leva a proferir estas palavras não tenho motivos para me animar.
24 de maio de 2007
Murros no estômago
Às vezes, quando menos se espera, recebe-se um.
Eu reciclo. Dou dinheiro à UNICEF e Amnistia Internacional. Assino as petições contra a violação dos direitos humanos. Comovo-me genuinamente com quem faz mais mas não dou o passo para lá do que se faz online. "Quando crescer / quando tiver tempo / quando os filhos forem maiores vou fazer a minha parte para que o mundo seja melhor", penso enquanto engulo o nó que se forma na garganta. E no entretanto passam-se os dias, meses e anos a gastar energia na manutenção do status quo. E, quando recebo um desses murros, não sei bem se o que me dói mais é o estado em que vai o mundo ou a realização da minha ausência de contributo para que não vá assim.
"Pensar global. Agir local." é o refúgio da minha consciência. Mas há dias - cada vez mais dias - em que esse cobertor me deixa os pés frios.
Eu reciclo. Dou dinheiro à UNICEF e Amnistia Internacional. Assino as petições contra a violação dos direitos humanos. Comovo-me genuinamente com quem faz mais mas não dou o passo para lá do que se faz online. "Quando crescer / quando tiver tempo / quando os filhos forem maiores vou fazer a minha parte para que o mundo seja melhor", penso enquanto engulo o nó que se forma na garganta. E no entretanto passam-se os dias, meses e anos a gastar energia na manutenção do status quo. E, quando recebo um desses murros, não sei bem se o que me dói mais é o estado em que vai o mundo ou a realização da minha ausência de contributo para que não vá assim.
"Pensar global. Agir local." é o refúgio da minha consciência. Mas há dias - cada vez mais dias - em que esse cobertor me deixa os pés frios.
16 de maio de 2007
O meu meme
Por desafio da Joana, passei algum tempo a pensar qual o meu meme de eleição, que ideia gostaria eu de ver a multiplicar-se na "piscina de memes" da sociedade actual.
Acabei por escolher um meme pouco egoista, temo que quase em vias de extinção, apesar de já ser velhinho, velhinho. Aqui fica, contra o Darwinismo social, que parece ser o meme dos dias de hoje.
"De cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades."
Não tenho muitos amigos, com blogs, para desafiar. Mas talvez o meu pai, a Vera e a Ana queiram pensar nisso.
[Pensei em mudar o título deste post para "2 em 1". É que este desafio, de blog em blog, também é, no fundo, um meme. Mas depois o link era alterado e este meme não sobreviveria a tamanha mutação.]
Acabei por escolher um meme pouco egoista, temo que quase em vias de extinção, apesar de já ser velhinho, velhinho. Aqui fica, contra o Darwinismo social, que parece ser o meme dos dias de hoje.
"De cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades."
Não tenho muitos amigos, com blogs, para desafiar. Mas talvez o meu pai, a Vera e a Ana queiram pensar nisso.
[Pensei em mudar o título deste post para "2 em 1". É que este desafio, de blog em blog, também é, no fundo, um meme. Mas depois o link era alterado e este meme não sobreviveria a tamanha mutação.]
10 de maio de 2007
Globalização
Quando o David foi para Cabo Verde pedi-lhe para me trazer um pano típico - e típico é a palavra-chave - para carregar o Luis.
Parece, garante-me ele, é que o que se usa por lá agora são estes sarongs, made in Indonesia, e comprados nas lojas chinesas.
É bonita a minha prenda. Vou usá-lo para levar o Luis e dar passeios na praia. Tenho pena é que seja típica da aldeia global e não de Cabo Verde.
Parece, garante-me ele, é que o que se usa por lá agora são estes sarongs, made in Indonesia, e comprados nas lojas chinesas.
É bonita a minha prenda. Vou usá-lo para levar o Luis e dar passeios na praia. Tenho pena é que seja típica da aldeia global e não de Cabo Verde.30 de março de 2007
Urban proof, not child proof
Para o Pedro, agora, qualquer carrinho que se aproxime do tamanho do pé é para brincar assim:
Não adianta explicar a um miúdo de dois anos e meio o que é uma metáfora, o que são liberdades criativas, o que é realidade e o que é fantasia.
Este exemplo inconsequente (ou antes inconsequente até à data e espero que se mantenha assim), fez-me pensar pela primeira vez se existe realmente uma necessidade de controlar o que eles vêm na TV. Não digo os anúncios, que me parece incontrolável, mas os programas em si. A minha infância não foi controlada assim, exceptuando pela hora de ir para a cama, e a ideia de eu o fazer deixa-me desconfortável.
Ando a pensar nisto há uns dias. E, após reflexão, acabo de reiterar a minha convicção de que não adianta, e não é bom, protegê-los do mundo. É deixá-los dar umas "quedas" e oferecer-lhes as melhores ferramentas possíveis para se protegerem. E não há melhor ferramenta que o conhecimento. E isto vale para a TV, livros e ruas.
E no que puder farei os possíveis para que o mundo (todo ele, não apenas o do Pedro e do Luis) se vá tornando um pouco menos hostil.
Não adianta explicar a um miúdo de dois anos e meio o que é uma metáfora, o que são liberdades criativas, o que é realidade e o que é fantasia.
Este exemplo inconsequente (ou antes inconsequente até à data e espero que se mantenha assim), fez-me pensar pela primeira vez se existe realmente uma necessidade de controlar o que eles vêm na TV. Não digo os anúncios, que me parece incontrolável, mas os programas em si. A minha infância não foi controlada assim, exceptuando pela hora de ir para a cama, e a ideia de eu o fazer deixa-me desconfortável.
Ando a pensar nisto há uns dias. E, após reflexão, acabo de reiterar a minha convicção de que não adianta, e não é bom, protegê-los do mundo. É deixá-los dar umas "quedas" e oferecer-lhes as melhores ferramentas possíveis para se protegerem. E não há melhor ferramenta que o conhecimento. E isto vale para a TV, livros e ruas.
E no que puder farei os possíveis para que o mundo (todo ele, não apenas o do Pedro e do Luis) se vá tornando um pouco menos hostil.
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