14 de janeiro de 2008

Finanças

A repartição de finanças do Lumiar renovou-se. Um Verão inteiro de obras, que eu desse conta, e agora surge envidraçada, com mobiliário claro, coordenado, e em tons de azul. Muitas plantas, também, como que a dizer que o ar ali, assim como tudo o mais, qual Sir Galahad, é puro. As paredes e portas são decoradas com palavras de ordem contra a evasão fiscal.

Depois de pagar os 3 euros e pouco pela caderneta de recibos verdes entregam-me uma folha A4. "É o recibo?". "Não, é a referência da caderneta. Mas quer recibo, é?".

10 de janeiro de 2008

Idade

Fui ao médico. Uma panóplia de exames para fazer, não porque haja suspeita de alguma maleita, mas porque "já estás em idade de ir controlando estas coisas". São comentários destes que nos fazem perceber que afinal não temos bem a idade que pensávamos que tínhamos. Há alguns marcos ao longo da vida. Lembro-me que o primeiro baque foi quando me apercebi que as candidatas a Miss Portugal eram já todas mais novas do que eu. Depois, de repente, deixa-se de ter Cartão Jovem. E agora já estou em "idade de ir controlando estas coisas".

É que, na minha cabeça, eu ainda ando de Kilt xadrêz. Ainda não sei bem o que se passa no mundo. Algumas roupas que me sugerem são "assim muito à senhora". E ainda me apetece comprar livros da Alice Vieira.

Numa conversa nada a propósito, com uma colega estrangeira de visita ao laboratório, dizia a Clara "I don't think we ever grow up". Pois. We just get old.

4 de janeiro de 2008

Cicatrizes

"Quando alguma coisa falta pode ser acrescentada". Esta frase está escrita numa parede de um prédio ao lado do meu. Não é graffiti. Faz parte de uma instalação alternativa qualquer que por ali houve. A instalação foi temporária, mas a frase é perene. Sempre que passo, olho-a, leio-a, e há ali qualquer coisa que trago para casa. É um modo de vida. Pode significar a diferença entre tornarmo-nos pessoas amargas a maldizer a nossa condição, ou felizes com a vida e achar que todos os males têm remédio. Gosto de a ler, amiúde. Tento que seja um lema.

Começo assim para dizer que costumo ler aquilo que vejo pintado. Nem sempre é só tinta a conspurcar paredes. E acho saudável fazer o esforço por ler o que alguém quiz dizer. Pode acrescentar-nos alguma coisa ao dia, se não à vida. Volta e meia tenho esta conversa com pessoas, mas geralmente não partilham o meu ponto de vista. Há uns tempos tive esta discussão com um amigo a quem enviei esta foto e lhe dizia que me perguntava porque é que existe esta necessidade generalizada de exprimir publicamente o amor. Um amor mais efémero do que os nomes que deixa escritos, argumentava ele, com razão. Mas talvez seja essa efemeridade a razão de o deixar gravado.

Tive esta epifânia, hoje ao almoço, enquanto conversava com o meu pai. Ele falava sobre um documentário em que se discutia o significado evolutivo das cicatrizes. Houve tempo e oportunidade para que a regeneração de tecidos fosse mais perfeita. Para que se conseguisse a elasticidade e pigmentação de uma pele virgem. Mas não. Desenvolvemos um processo de cicatrização que deixa marcas. E evolutivamente faz todo o sentido. São memórias que ali estão. Memórias dos sarilhos em que não nos devemos meter se queremos sobreviver. Memórias do que nos magoa. Do que devemos evitar. E de repente, percebi, que o amor público pelas paredes da cidade, pelos bancos, pelas troncos de árvores, são cicatrizes também. Que se enchem de significado quando o amor passa. E nos servem de lição quando as relemos.

Começo a olhar as cicatrizes de forma diferente, desde hoje ao almoço. Sempre achei que as de "guerra" continham histórias, mas agora percebi que todas elas são memórias dignas. Quem prestar atenção à coluna da direita verá, pelos meus links, que vivo a frustação dos meus filhos não terem nascido de parto natural, que sinto as duas cesarianas por que passei quase como uma violação da minha condição de fêmea. Mas hoje olho a minha cicatriz púbica, cujo o meu tipo de pele ainda exagerou ao formar queloide, e tenho pena que não se note quando uso biquini.

28 de dezembro de 2007

Passado, presente e futuro

No meio de arrumações encontro os meus antigos livros de pano com dedicatória do meu avô. "Para a Joana no seu primeiro aniversário como lembrança de seus avós Belém e Celina". Numa letra certinha que ainda hoje é a minha inveja. O meu avô deixava dedicatórias em tudo o que oferecia. Deu-me uma garrafa de vinho do Porto de presente de baptismo com dedicatória e instruções para apenas a abrir no dia do meu casamento. Quando era miúda costumava namorá-la. Volta e meia ia buscá-la ao bar e pedia-lhe para me ler o que estava escrito. "E se não me casar?". "Se não casares abres no dia em que fizeres 35 anos". Memorizei isto. Aos 35 estaria, portanto, oficialmente encalhada.

Durante quase toda a adolescência achei que a tal garrafa seria aberta aos 35. Era esse o meu destino. Imaginava-me como aquela mulher da Laranja Mecânica: só, numa casa cheia de gatos e a estátua de uma pila no aparador. Volta e meia tomaria chá com a minha prima Marta que teria ficado para tia como eu. Mas o João apareceu. Tenho os miúdos. Só tive um gato durante 15 dias. E a minha prima entretanto morreu. Quanto à estatueta fálica, nunca encontrei nenhuma que gostasse. Se vir alguma assim de inspiração Cutileiro talvez a compre e coloque perto do "Anjo caído", nú, que tenho numa das paredes, para completar a desaprovação da minha avó. Já hoje me diz "Ele está bem feitinho, tem os pés e as mão muito bem feitinhos... Mas estar assim logo com o rabo virado para a porta, para quem entra... Não sei, não gosto". É assim que recebemos os amigos lá em casa.

Agora deixei-me de imaginar futuros. No máximo dos máximos imagino alguns meses adiante, alguma disponibilidade a mais, as férias de Verão, mas mais não. Talvez porque já não recebo prendas com dedicatórias, intruções e "para sempre".

20 de dezembro de 2007

A festa

Quando era miúda levava as festas de Natal da escola muito a sério. Lembro-me de uma vez em que era suposto dançar num rancho. A professora só quis ensaiar meninos que tivessem a certeza absoluta que iriam à festa. Repetia isso todos os dias. "Tens a certeza que vais? Já falaste com os teus pais?". Eu tinha.

Na véspera do dia marcado passei a noite em branco com uma dor de dentes. Dormi aos soluços, no dia seguinte, sempre a pedir à minha mãe que me levasse à festa nos intervalos. Tinha que lá estar, tinha um compromisso. Não me levou. Passei o resto do fim-de-semana sem saber como encarar a professora depois de tanta garantia dada. Chegou segunda-feira e ninguém me disse nada. Não sei se por palavra prévia dos meus pais, se porque realmente não era importante para ela. Eu era só mais uma aluna e era só mais uma festa na escola. Mas foi a primeira vez, que me lembre, que senti o peso de faltar à minha palavra. E a impotência de não depender de mim a decisão de ir ou não ir.

Não sei se todos os miúdos encaram as coisas assim. Suspeito que não. Mas lembro-me sempre disto quando se trata, agora, das festas dos meus filhos. Sei lá eu avaliar o empenho, a expectativa, que por ali vai. Há que corresponder.

E depois, convenhamos, também há expectativas do lado de cá. Não há programa alternativo que supere a minha estrelinha amarela, parado no meio do palco, a procurar-nos com os olhos enquanto tira um macaco do nariz. É de derreter qualquer mãe.

10 de dezembro de 2007

Amarelo

Blusa amarela e collants amarelos. Foi o recado que recebi relativamente à indumentária do Pedro para a festa da escola. Vai ser uma estrelinha, digo eu. Ele não se descose.

Mas não existem collants amarelos. Provavelmente já o saberia se fosse mãe de uma menina, como me demonstrou o ar incrédulo da minha vizinha quando lhe perguntei se tinha uns collants amarelos que me emprestasse. "É que não há em loja nenhuma", disse-lhe eu. "Pois, amarelo não existe", disse-me ela. Esta certeza confirmou-me que é um mal de que padecem as lojas em permanência, não é coisa desta estação. Existem escaparates de collants, com um dégradé de cores que, desconfio, algumas nem diferem nas suas propriedades espectrais, apenas na saturação. Mas do créme salta-se para o laranja sem comprimentos de onda intermédios.

Comprei uns brancos. Coloquei numa panela com água a ferver e uma pitada de açafrão. Os gestos mecânicos de quem está ao fogão fizeram-me provar o caldo e notar que estava insonso. Juntei sal, portanto. Ficaram bons. Amarelo torrado e a cheirar a Arroz à Valenciana. Não sei de onde vem isso de que o amarelo é de mau gosto.

5 de dezembro de 2007

Outra vez a Área de Broca

Tive uma reunião com a professora do Pedro. Desde o princípio do ano que me encho de expectativas com o método pedagógico construtivista, baseado no Movimento Escola Moderna, que encontrei ao virar da minha esquina, no Jardim de Infância do Centro Social da Musgueira. Na Wikipédia até lhe chamam "pedagogia libertária". E "libertária" deve ser uma das minhas palavras preferidas.

Gostei de ver o trabalho destes 3 meses, os registos escritos da evolução oral do Pedro. Está tudo apontado assim, tal e qual como ele diz, "Eu fazi", "Eu não sabo". Vejo que no início escolhia sempre ir fazer construções e que agora já diversifica mais as suas actividades. E também explica melhor o que quer fazer, ou o que fez ou não fez. Trouxe também uma centena de fotografias para casa. Se ele sair a mim, as memórias ser-lhe-ão preciosas e, quando for crescido, vai gostar de ver estes registos de "quando era pequenino".

Há também o portfolio. Uma espécie de selecção de trabalhos ou fotografias feita por ele, a professora e os pais. Escolhemos o que queremos para o portfolio e dizemos porquê. Eu escolhi uma pintura de uns cactos. "Porque... é assim... não sei. É giro mas também porque... é organizado. Não sei explicar... Tá a perceber? É assim, ele queria fazer um cacto e fez, e não fez outra coisa. Não sei. E é giro. Percebe?". O que eu queria dizer é que aquela pintura me parecia ter sido uma actividade muito estruturada para ele. Pintou uns cactos, com todos os seus detalhes, com os picos e as flores. E que, ainda que seja importante a imaginação, não andou a pintar crocodilos, ou nuvens, ou formigas, ou outras coisas que não têm nada a ver com cactos, porque não era esse o objectivo da actividade. Era isto que eu queria dizer. Tinha sido uma tarefa estruturada. O meu discurso é que não foi nada estruturado. Quando me li na folha branca de word, corei de vergonha. E juro que se vir por aí um desses cursos de técnicas de debate ou algo que o valha, inscrevo-me imediatamente!

27 de novembro de 2007

Menino Jesus

Chegou ontem, inesperadamente, enquanto eu descascava batatas para o jantar. Recebi um telefonema da Vera, contente com a sua prenda, e precipitei-me para o e-mail para ver se lá estava a minha, ou se me tinha calhado carvão. É que nem sempre sou bem comportada.

Mas o Menino Jesus foi bonzinho e deu-me uma a mim também.

23 de novembro de 2007

Descanse em paz

O meu telemóvel custou-me uma brutalidade. Sessenta contos. Parece-me mais obsceno hoje do que no dia em que os paguei com uma ligeireza que já não conheço, que não sei já bem quando foi, mas sendo contos deve ter sido há uns 7 anos. Não há como a subtracção de uma bolsa da FCT e a adição de 2 filhos e uma prestação bancária para relativizar estas coisas.

É um NOKIA qualquer coisa. Preto. Esguio. Mas de tamanho adequado à minha mão: não carrego desajeitamente em duas teclas quando tento marcar um número como me acontece com alguns dos diminutos modelos mais recentes. Estava afeiçoada a ele. Principalmente desde que lhe coloquei fita-cola para manter a bateria bem presa e não perder as chamadas a meio. Olhava-o e via ali um fiel companheiro. Vivido, com histórias. Que descanse em paz.

Agora fiquei com o do João. Custou-me esta decisão. Este, coitado, não tem a altivez do outro. É pequeno, atarracado. Nunca acerto na tecla para atender as chamadas quando o procuro no reboliço que é a minha mala. Perco imensas. Tem algumas feridas de guerra que me fazem olhá-lo com carinho. Mas não são cicatrizes feitas na minha mão, não lhes conheço os detalhes. Quem sabe, daqui a uns anos, serei capaz de um elogio fúnebre mais sentido.

Têm-me perguntado pelo número. Mantenho o antigo ou mudo-me definitivamente para o novo? Curiosamente não sinto o mesmo afecto pelo número como pelo objecto. O que me permite estar contactável há tantos anos, o cartão, parece-me mais fácil de deixar para trás. Principalmente estando todos os meus contactos na memória do telefone.

Começo, portanto, uma nova lista. Digo assim, de forma passiva, adeus a contactos antigos que não tive coragem de apagar. Como o do Luis. E o do meu avô.

14 de novembro de 2007

Um copo d'água

Num café onde parei ocasionalmente, como em tantos outros, um rapaz entrou e pediu um copo de água. Pela primeira vez na vida ouvi, pasma, as razões de um comerciante para não aceder ao pedido. Que vendia era garrafas de água, não era copos. Que estava ali desde as 5 da manhã. Que ninguém trabalha de graça. Se acaso sabia qual a sua conta de água mensal. Quando por fim, de forma bruta, colocou o copo cheio no balcão o rapaz já não o quis. Saiu ofendido. Fez ele bem. Tanto veneno espumado, algum havia de ter caído ao copo.

Tristes tempos, estes, em que se nega um copo de água. É o que penso e foi o que disse. Foi algo do género, também, que lhe disse uma senhora de idade a terminar um galão e uma torrada. Era cliente habitual e nunca mais lá iria. À saida mostrou-me que levava, à revelia, o pacote de açucar não utilizado, "para ele aprender!".

O rapaz, esse, passou depois à porta com uma garrafa de água fresca comprada no café seguinte.

Coitado do senhor do café! Para além de paupérrimo de espírito, ficou mais pobre em três potenciais clientes, uma garrafa de água, e um pacote de açúcar.

31 de outubro de 2007

Musgueira

Ontem cheguei mais tarde ao Lumiar. Já eram 8 da noite. O frio fez-me desistir de esperar uma boleia do João, ainda algures no centro de Lisboa, e plantar-me na paragem à espera do 108, o único que por ali passa e me carrega Estrada da Torre acima, por 2 ou 3 paragens. Costuma dizer "Galinheiras" em letras grandes e alterna com "via Alta de Lisboa", em mais pequeno. O 777 também é assim, o "via Alta de Lisboa" surge nos intervalos de "Ameixoeira". Aos poucos, começa a ser destino de gentes, a Alta de Lisboa. A palavra "via" dá-lhe ainda uma certa ideia de local por onde se passa, e onde se pode morar, sem ser, no entanto, um destino final, periférico, como o que fica implícito em "Galinheiras", "Ameixoeira", "Senhor Roubado". Penso nestas coisas enquanto escrutino o destino dos autocarros que se aproximam, na esperança do 108 que me tire do frio da rua.

Mas às 8 da noite, descobri eu ontem, passam na minha paragem mais autocarros do que o 108. Às 8 da noite, muitos dos números que por aí andam com destinos centrais como o "Saldanha", transformam-se qual carruagem em abóbora, mudam o letreiro para "Musgueira" e recolhem à garagem para passar a noite. Alguns deles, já fora de serviço, tornam-se nesta altura mais solidários e transportam sem perguntas quem espera para subir a Torre. Foi assim que ontem embarquei num qualquer que dizia "Musgueira". Lembra-me encostas viradas a Norte e manhãs frias de nevoeiro. Fez-me sentir que rumava a um local com histórias e memórias. Senti um certo conforto nisso.

Pergunto-me se qualquer dia os letreiros da Carris trocarão definitivamente "Musgueira" por "Alta de Lisboa", esconjurando assim os antigos fantasmas. Espero que não. Não é o hábito que faz o monge e "Musgueira" é um hábito tão mais bonito.

24 de outubro de 2007

Super

Volta e meia penso nisto.

Nas salas de espera folheio revistas com mulheres de negócios elegantes, com ar de quem acabou de fazer um mês de férias nos antípodas, envergando modelos da última colecção e com o discurso de que não há nada mais importante do que os seus filhos, nada que lhes roube o justo tempo com eles. E gostam também muito de cozinhar, levantar-se às 5 da manhã e ir pessoalmente comprar pão ainda quente para tomarem o pequeno-almoço à mesa, todos juntos, em família. Leio-as com algum sentimento de desadequação. Afinal eu só sou mais ou menos. Sem carreira que me pague ordenado condigno, sem férias que me descansem, sem tempo para os filhos quando chego a casa, um guarda-roupa algo desadequado a qualquer situação que se apresente, e o meu pequeno-almoço é muitas vezes pão de há 4 dias atrás, em torradas, intervalado com a lavagem de dentes do Pedro ou algum outro afazer doméstico matinal. Pensando bem, sou pior que mais ou menos.

Por isso, volta e meia, penso nisto. E quando conseguimos equilibrar o orçamento mais um mês apesar de só haver um ordenado na família, organizar as idas e vindas de todos com um carro e um passe, levantar cedo ao Sábado para conseguir levar os miudos à natação, participar nos projectos que as escolas vão pedindo, e fazer jantares e almoço para o dia seguinte todos os dias, já me sinto bastante competente. Exausta, acabada, liquefeita, não-super, mas competente.

Super, super, só quando apanho uma molha enquanto carrego o Luis e levo o Pedro pela mão. E chego a casa a coxear por causa de uma bolha no calcanhar. Como ontem. Foi uma bela massagem ao ego, sentir-me assim, super. Estava a precisar.

22 de outubro de 2007

"Vestir o bebé"

O Luis nasceu com o destino traçado: ser pendura. Um irmão apenas 2 anos mais velho exige mãos livres. E para alcançar este feito de andar pela rua com os dois ao mesmo tempo adiquiri no último ano o marsúpio da Red Castle, um sling da Rosa Pomar, outros feitos pela minha avó, e ainda um do Clube do Pano que uso ultimamente por distribuir melhor os 12 quilos de um bebé gordo e feliz. Recomendo-os a todos, cada um melhor para uma ocasião ou fase diferente.

Foi assim, por necessidade, que descobri o babywearing. Hoje tenho pena de não ter descoberto antes, com o Pedro. Porque acalmava o Luis quando chorava, porque criei laços ao carregar o Luis que não criei ao empurrar o Pedro no carrinho, porque me fez descobrir a simplicidade na maternidade - tão escondida, hoje em dia, no meio de tantos acessórios inúteis -, porque existem padrões bonitos que me fazem sentir feminina - afinal não sou apenas mãe - mas, acima de tudo, porque é muito, muito prático. Não só para quem gosta de caminhadas pelo campo. É também a solução para a cidade: para fugir rapidamente de um centro comercial pelas escadas rolantes porque não é preciso esperar pelos elevadores, para ir ao café a pé sem ter que colocar o carrinho no meio da rua por causa dos carros mal estacionados e dos postes de sinais de trânsito plantados no meio do passeio, para ir ao supermercado sózinha e só levar o carrinho das compras, para carregar sacos do carro para casa, para dar uma corrida rápida e escapar de uma molha, para segurar um guarda-chuva que nos protege aos dois ao mesmo tempo, para me equilibrar no metro ou no autocarro até chegar aos lugares reservados. E para dar a mão ao mais velho, claro.

Assim, todos os dias, quando enrolo o Luis junto a mim e saio para a rua, sinto-me dona d'A Solução. Apetece-me partilhá-la. Fazer um workshop. No mínimo, escrever um post.

Só há uma coisa que ainda não sei. É traduzir babywearing. "Vestir o bebé" induz em erro. "Usar o bebé" é dúbio. "Usar o bebé como acessório" é longo demais e não me agrada a ideia subjacente de bebé-objecto. Faltam-nos palavras. Oxalá a falta de verbo em português não limite a acção por estes lados.

8 de outubro de 2007

Comunhão

Quando me sabem de volta aos transportes públicos, e com o Luis como companhia, ouço frequentemente "Coitadinha...". Não sei como explicar que no princípio do mês, ao comprar o passe, sinto quase como se comprasse a minha carta de alforria. O carro é como uma prisão. Sem dúvida mais confortável que um autocarro, mas estar dependente dele oprime-me. O estacionamento, as bichas, angustiam-me. O carro torna-me a vida cinzenta. No autocarro sinto-me em comunhão com a cidade. Faço parte dela. Posso mostrar ao Luis as luzes de Natal que não tardarão a aparecer no centro da cidade ao invés de tentar evitar o trânsito pela periferia. Posso ler as capas dos livros de quem se senta à minha frente, de cada pessoa nova, ao invés dos cartazes publicitários de sempre expostos pela rua. Sinto-me mais exposta à vida... acho que é isso.

4 de outubro de 2007

90

Desde segunda que apanho o 90 para ir trabalhar. Na verdade, há muitos anos que apanho o 90, intervalado por periodos de outras carreiras, de metro, de carro, dependendo das moradas que me têm acolhido. Mas o 90 é dos meus meios de transporte preferidos e fico feliz quando a vida se conjuga de modo a que faça parte do meu dia a dia. É o único que faz a ligação Saldanha - Sta. Apolónia. O único que sabe que, chegado à Praça do Comércio, existe destino à esquerda. Que nem toda a gente quer ir para o Cais de Sodré. Ou que, chegado à Fontes Pereira de Melo, há quem queira ir em frente.

Há anos atrás reduziram o número de carreiras. Agora, o 90 só trabalha em part-time de manhã e ao final da tarde. E, ouvi dizer, até ao final do ano será terminado o percurso. Não serve de nada escrever à Carris e testemunhar o meu carinho pelo 90, a falta que me fará. Quando o fiz sobre o trajecto final do 108, que foi abruptamente amputado, responderam-me que uma lotação de 30% não justificava a sua manutenção. Eu acho que vinte e poucas pessoas por cada autocarro, quase 100 pessoas por hora, é desconsiderar muita gente. Mesmo que tanta gente sejam só 30%.

1 de outubro de 2007

Área de Broca

Cheguei à conclusão que tenho um problema na Área de Broca. Eu até compreendo bem as coisas, modéstia à parte. Mas verbalizá-las não é comigo. Escrever sim. Mas falar... Devem ser processos neurológicos diferentes, isto de organizar discurso escrito e organizar discurso falado. Tenho que ir ler o Damásio.

Tudo para dizer que o pesadelo de dia 27 já passou. Não estive brilhante, nem nada que se pareça. Pelo menos não pelos meus padrões. Sou melhor do que foi a minha prestação pública. Gostava era que estas provas fossem escritas. Mas lá deu para o doutoramento summa cum laude, que até seria coisa de orgulho, não fosse isto tudo política.

Ainda não sinto nada. Nem alívio, nem contentamento. Pareço um daqueles condenados institucionalizados que não sabem viver cá fora ao fim de tanto tempo encarcerados. No dia seguinte fartei-me de chorar. Fiquei com o dia a dia desprovido de sentido.

Mas hoje, ah hoje!, colhi os primeiros benefícios desta minha graduação. Fui pedir o certificado e, apesar de ser a mais mal vestidinha da fila, com umas calças de ganga desfiadas, blusa da feira e filho mais novo à tiracolo, era só senhora doutora para cá e senhora doutora para lá. Conquistei o respeito de um guichet de atendimento. Até me deu vontade de rir. No banco só não recebo olhares paternalistas quando o João me acompanha dentro do seu fato cinzento. Tenho que lhes mandar uma cópia do certificado. Ou então tenho que passar a vestir-me melhor. Assim é o mundo.

E, só para finalizar, a história realmente digna de ser contada, no fim desta minha odisseia, foi ter recebido no dia 28 a notificação oficial da FCUL para comparecer a provas no dia 27. Assim é o país.

19 de setembro de 2007

Chove

Farta da Lagoa de Santo André escrevo este post enquanto olho pela janela. Chove e troveja. O céu está cinzento e a luz natural é escassa. Tudo nesta imagem, e até o som das ventoinhas do meu portátil, me faz lembrar com saudade o regresso às aulas, em tempos idos.

Hoje trabalho em casa e faço pausas quando me apetece. A minha avó está por cá e traz-me um lanche quando me queixo de fome. Como em frente ao ecran, ou aos livros, como dantes. Torradas e "café da panela".

Esta tarde tenho menos 15 anos. E se o Outono se instalar terei menos 15 anos até ao final do mês. Retorno aos 32 apenas ao final do dia quando saio para buscar o Pedro e faço o jantar ao João.

11 de setembro de 2007

Aceitam-se apostas!

Eu aposto que o Mike vai fazer um pós-doc.

Não sei se ria ou se chore quando me apercebo que toda a minha vida é caricaturada em BD. Sou uma quimera, um cruzamento entre o Mike e a Wanda. E até tenho a Bunny como vizinha.

3 de setembro de 2007

Resposta certa

Por vezes, quando algum assunto me preocupa, ocupo o tempo a construir diálogos imaginários onde digo o que realmente me apetece ou preparo resposta para qualquer eventualidade.*

Há dias tive uma destas discussões com o João. Apesar de imaginária, deixou-me com um mau humor real. Confessei-lhe: "É que tivemos uma discussão na minha cabeça e fiquei mesmo chateada...". Ele: "Desculpa lá o que te disse na discussão, foi sem intenção".

* Isto havia de ser útil para treinar a defesa da tese, mas não funciona quando deve. A propósito, o dia temido é já a 27.

7 de agosto de 2007

Lagoa de Santo André revisited

Há cerca de um mês fiz uma pequeno trabalho para a Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha. Sabia que já havia estado na lagoa de Santo André, em miúda. Dias de praia com os meus primos de Sines. Não sabia e não lembrava mais nada.

Li o Plano de Ordenamento do Território, vi mapas, googlei "lagoa de santo andré", li como estava separada do mar por um "estreito cordão dunar". Construi o meu conhecimento sobre a Lagoa de Santo André no decorrer deste trabalho.

Por fim fui visitá-la. Porque foi preciso. Olhei e, num segundo, vieram-me à memória as recordações e sensações desses dias de infância. Lembrei-me então, claramente, de perguntar pelo meu pai e me dizerem que tinha ido à água, ao mar. De olhar para a água e não o ver e me esclarecerem depois que não, que foi ao mar, do outro lado. E da confusão que foi, durante tanto tempo, na Lagoa de santo André haver água em ambos os lados da praia...

Ao fim de 30 anos sei responder a essa dúvida infantil que já nem lembrava: tínhamos o guarda-sol algures no "estreito cordão dunar".